Lech Lecha Caminhe diante de mim

CENTRO CRISTÃO DE ESTUDOS JUDAICOS - Estudo da Parasha da Semana
– Cristãos estudando as fontes judaicas
LECH LECHA: CAMINHE DIANE DE MIM - Rabbi Adin Steinsaltz
Talks on the Parasha. Jerusalem: Shefa – Maggid Books, 2015, p. 20-28

Prova e luta
Até certo ponto, as duas primeiras parashot na Torah são narrativas trágicas, lidando com as falhas fundamentais do ser humano. Ao contrário, com Lekh Lekha começa uma série de alegres parashot. Desta parasha em diante entramos numa realidade diferente, mais focadas nos triunfos do ser humano e nas suas conquistas.

Os personagens centrais destas parashot - Adão, Noé e Abraão – são mais do que indivíduos: Eles são símbolos também. Adam como um símbolo da humanidade que falhou na sua primeira prova, sobre a qual a Torah sintetiza: “E Deus se arrependeu de ter feito o ser humano” (Gn 6,6).

Noé é um símbolo do fracasso também – desta vez, da humanidade na sua segunda prova – e sua parashá conclui num semelhante modo, com a história da queda pessoa de Noé e a história da queda da geração que construiu a Torre de Babel.

Os Sábios de Israel comentam resumidamente estas falhas: “Houve dez gerações de Adão até Noé... dez gerações de Noé até Abraão” (Pirkei Avot 5,2). Todas as gerações entre eles foram desconsideradas não porque não eram importantes (se elas não fossem importantes para nós, não falaríamos sobre elas), mas porque, no fim das contas, elas foram gerações que fracassaram. Somente aqui, em Parashat Lekh Lekha, começa uma nova história – a história de Abraão, do triunfo do ser humano.

A história de Abraão não é apenas a história de um perfeito justo tzadik, que “caminhou com Deus”, e morreu pacificamente também. A história não terminou assim. Os filhos de Abraão não foram todos justos - tzadikim. Em qual sentido, então, é a história de Abraão a história do triunfo do ser humano? A resposta é que é a história de um ser humano que seguiu um caminho que incluiu provas, esforços e contratempos também, e que no final, foi bem-sucedida alcançando seus objetivos. Iluminados por isso, consideramos com confiança, que a Parashat Lekh Lekha é a primeira de uma série de alegres parashot.

Provas
parasha começa com uma prova. Comentando sobre esta prova e em semelhantes provas através de Gênesis, os Sábios de Israel dizem, “As experiências dos Patriarcas prefiguram a história dos descendentes deles” (Tanhuma, Lekh Lekha 9; Nachmânides sobre Gn 12,6).

Por causa disso, é importante entendermos o que é uma prova e qual sentido tem resistir a uma provação. Embora ambos, Adão e Noé sejam nossos ancestrais, a Torah nunca indica que devemos seguir seus exemplos em aspecto algum. Abraão, ao contrário, é nosso exemplo; tentamos imitar sua conduta, seguindo seu caminho no processo de construir nosso caráter.

A Mishná afirma, “Abraão nosso patriarca foi provado com 10 testes, e ele resistiu a todos eles” (Pirkei Avot 5,3). A lógica diz que as provações foram se tornando mais e mais difíceis, para uma pessoa que resistiu a uma dura provação ela não será testada com outra provação mais fácil. Apesar disso, as provações não significam aumentam de dificuldade em termos de sofrimentos físicos. Depois de tudo, a verdadeira primeira provação – “Siga em frente” (Lekh Lekha – Gn 12,1) – na qual a Abraão é dito para fazer suas malas e se dirigir para algum lugar – essa provação é muito mais difícil e complicada que o teste de “Atende a tudo o que Sarah te pedir” (Gn 21,12), o que não implica no esforço físico.

Portanto, o aumento das dificuldades das provações, se dá em termos de esforço espiritual exigido de Abraão: cada teste se torna mais pessoal, mais comovente, e mais internamente desafiador que o teste anterior. Cada um dos testes corta mais profundamente a alma de Abraão e requer um maior e mais profundo sacrifício interior e espiritual.

Uma visão fundamental de todas essas dez provações mostra que a Abraão foi exigido cortar – gradualmente e progressivamente – todos os laços entre ele e outras pessoas, entre ele e todas as coisas às quais ele estava conectado e próximo. E ele na verdade fez isso, com todas as dificuldades que isso implica.

Primeiro, ele deve deixar sua casa e família, e separar-se de seus amigos e parentes e de tudo aquilo que lhe era familiar. A Abraão é dito para que ele vá em frente, “deixando sua terra”, isto é, seu lar, onde ele conhece a linguagem e os costumes; “do seu lugar de nascimento” – isto é, da sua própria esfera pessoal, não necessariamente ligada ao espaço físico; “e da casa de seu pai” – isto é, da sua família. Abraão deve separar-se de todos os componentes da sua vida e da sua personalidade.

Mais tarde, existe uma grande fome em Canaã, e Abraão é forçado a deixar esse novo lar também, mesmo que lá tenha chegado recentemente. No Egito, sua esposa é tomada dele, e ele não sabe quando ela vai retornar; faraó não oferece a ele um endereço ou data. A ele é dito para mandar embora seu filho mais velho, e assim ele faz.

A décima prova – a Akeda (amarração de Isaac) – é a mais difícil prova de todas elas. É muitas vezes mais difícil que as provas anteriores porque exige duas coisas ao mesmo tempo de Abraão: primeiro, ele deve matar seu filho Isaac, que é “seu filho, seu único filho, que você ama” (Gn 22,2), e ele é a descendência prometida a ele por Deus. Segundo, ele deve realizar um ato que é muito mais sério e difícil, além da crise pessoal de perder seu único filho. É a crise final da fé para Abraão – ele deve matar e sacrificar um ser humano, algo que Abraão sempre foi contrário durante toda a sua vida.

ANULANDO O POR QUÊ

Sobre a provação de Lekh Lekha muitas intrigantes perguntas se apresentaram imediatamente: Deus diz para Abraão:

“Parte de tua terra, da tua família e da casa de teus pais para a terra que Eu te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação e te abençoarei. Tornarei grande o teu nome. Tu sejas uma bênção. Eu abençoarei os que te abençoarem. E amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (Gn 12,1-3).

Num primeiro relance, esta ordem não parece ser tão terrível. Deus diz para Abraão seguir em frente, prometendo derramar bênçãos sobre ele se fizer isso. O que poderia ser melhor?

A questão é somente aumentada quando este teste é comparado com aquele outro teste, o da Akeda (amarração de Isaac). É interessante perceber que as duas provações contém as mesmas expressões “Siga em frente”, “Que Eu lhe mostrarei”; “Que Eu indicarei”), e elas são estilisticamente semelhantes em muitos detalhes práticos também. Contudo, existe uma essencial diferença entre essas provas. Na Akeda, não existe promessa atrelada ao teste; existe somente a ordem para realizar a Akeda, sem oferecer razão alguma, incentivo ou segurança.

Aqui, em torno do mandamento de “seguir em frente” existe uma longa lista de bênçãos. Hoje, com frequência, muitas pessoas deixam seu país de origem, seja a Terra de Israel ou qualquer outro país com problemas menores – para perseguir a mera possibilidade de encontrar prosperidade em outro lugar. As suas explicações para a partida deles é caracterizada pela incerteza, pelas palavras “talvez”, “possivelmente” e “quem sabe”. Pessoas sempre atravessam oceanos mesmo quando elas sabem que irão encontrar somente bênçãos parciais, e não de forma completa. Aqui, porém, Deus promete a Abraão que ele precisa somente seguir em frente, e ele terá então tudo o que for bom. O que mais ele necessita?

Na verdade, o teste de Lekh Lekha não foi o primeiro teste. Foi precedido por um anterior, o qual não é explicitamente contado na Torah, mas aparece no Midrash (Pirkei de Rabbi Eliezer 26). Naquele teste, Abraão teve que se lançar na fornalha de fogo em Ur Kasdim como resultado diante da sua recusa em adorar ídolos. Abraão voluntariamente preferia dar sua vida ao invés de repudiar sua crença num único Deus. Após tal experiência, qual seria a dificuldade de Lekh Lekha? Parece absurdo: Após Abraão estar disposto a sacrificar a si mesmo em honra de seu Deus, lhe foi dito: “Eu vi que você de boa vontade queria morrer. Agora irei colocar você diante de um teste maior: Você estaria disposto igualmente a mudar seu lugar de residência?”.

A resposta para essas questões é dupla. Primeiro, como afirmamos, as provações são em ordem ascendente em termos de interioridade, dificuldade espiritual, não em termos dos seus esforços físicos. É verdade que sofrer o martírio pela glorificação do Nome de Deus é incomparavelmente mais difícil fisicamente do que mover-se para uma terra diferente. Contudo, quando uma pessoa morre pela glorificação do Seu Nome, ele sabe porque está fazendo isso. Concedido, este tipo de martírio é um grande e louvável ato, um teste que nem todos são capazes de suportar. Além disso, ao longo da história, esses sempre são considerados extraordinários exemplos.

Ao mesmo tempo, o martírio nunca foi um acontecimento inteiramente incomum. Como está dito no Midrash, recontando um diálogo entre dois Judeus que foram sentenciados à morte: “Por que você será apedrejado? Porque eu circuncidei meu filho”. “Por que você será queimado? Porque eu mantive o Shabbat” (Leviticus Rabbah 32). Uma pessoa preparada para morrer pela glorificação do Nome de Deus possui uma certeza interior; ela sabe que isto é a absoluta verdade. Ela sabe porque está prestes a morrer, e sabe qual o propósito de estar dando sua vida.

Porém, aqui na prova de Lekh Lekha falta esse elemento. Abraão recebe uma ordem, mas sem justificação ou razão alguma oferecida. Se alguém quer ser temente a Deus individualmente, por que não pode ela realizar isso no seu bairro mesmo? É impossível ser uma pessoa temente a Deus em Harã, em Ur Kasdim? Existe algo de errado nesses lugares? Por que Abraão, ou quem quer que seja, deva retirar-se de seu lar no serviço ao SENHOR?

Então, a provação aqui pertence não ao esforço físico, mas para a falta da justificação interior, de um sentido de significado e propósito. Na provação da fornalha de fogo, Abraão não tinha que mudar o que estava no seu coração. Ele tem um claro propósito e absoluta convicção interior. Aqui em Parashat Lekh Lekha, contudo, Abraão não tem uma razão interior, e a questão é em que medida ele está disposto a mudar a si mesmo, para renunciar suas crenças pessoais, de modo a aceitar sobre si mesmo a realeza de Deus. Por que uma pessoa deveria levantar-se e deixar – mesmo se a ele são prometidas bênçãos e sucessos – embora não exista razão alguma para fazer isso? Anulando o “por quê” é o desafio aqui, o verdadeiro teste da provação de Lekh Lekha.

PARTINDO SEM DESTINO

Existe ainda outro aspecto da prova de Lech Lecha, e que parece ser a essência da dificuldade, e que a encontramos na segunda parte da ordem: “para a terra que Eu lhe mostrarei”.

Abraão parte sem um endereço, sem um destino. Isto é muito mais difícil do que cortar laços pessoais. Quando Noé constrói uma arca, ele sabe certamente o porquê está fazendo isso. Consequentemente, por isso não se diz que Noé enfrentou a “provação de construir a arca”. Claramente está dito: ele deve construir uma arca no decurso de 120 anos e salvar a si mesmo da iminente catástrofe mundial. Mas quando Abraão deixa seu lar, ele parte para um horizonte desconhecido sem um aparente objetivo ou destino que seja.

É muito difícil aceitar a ideia que alguém parta sem destino algum. Esta é a fundamental diferença entre o auto sacrifício que foi pedido a Abraão anteriormente. Quando é dito a Abraão para partir para um lugar “que Eu lhe mostrarei”, então mesmo que ele tenha uma fé absoluta em Deus, ele seria inevitavelmente assediado por uma poderosa questão: “Para onde estou indo?” “Para qual propósito?” Se Deus tivesse dito para Abraão: “Vá para a terra de Canaã” não teria sido uma dificuldade para ele ter partido. Ele poderia ir para qualquer lugar – até mesmo para Sodoma. Mas ir sem destino algum, para “uma terra que Eu vou lhe mostrar”, significa ir sem antecipação alguma sobre chegar num determinado lugar. Saber para onde se está indo nos oferece certa paz de espírito, a despeito de qualquer lugar que seja. Deus diz para Abraão, “Você está indo”. “Para onde?” “Você descobrirá”. “Vai lhe ser dito”.

SEM FIM

Este teste não é um dilema pessoa somente para Abraão. Existem muitas esferas, relembrando as palavras dos Sábios de Israel citadas anteriormente: “As experiências dos patriarcas prefiguram a história dos seus descendentes”. Nossas vidas são estruturadas do modo que tudo tenha um propósito, tudo tem um momento em que começa e um ponto onde termina. Consequentemente, fazer algo que não tenha um fim pode causar uma real angústia.

Assim, por exemplo, uma das mais frustrantes coisas no reino do estudo da Torah é que não existe ponto algum em que se possa dizer: “eu terminei de aprender”! Por causa desta natureza assustadora infinita da Torah, estudantes sempre podem criar pontos finais artificiais para si mesmos. Em todo Israel, existem muitas casas de estudo da Torah onde estudantes treinam para se tornarem juízes. A maior parte dos estudantes sabe que o programa não irá beneficiá-los financeiramente – não lhes é garantido trabalho algum após o término do programa. Por que então eles se inscrevem em tal programa?

Em muitos casos, isso serve para preencher uma necessidade emocional: um estudante pode sentir que ele não está andando sem rumo. Uma pessoa que dedica seu tempo para o estudo da Torah por cinco ou dez anos percebe que não aprendeu praticamente nada além da experiência de ter sentado e aprendido. E se ele decidir estender por mais um ano, o que ele ganha? Ganha somente a experiência de ter se sentado por mais um ano.

Alguém que estude numa universidade por muito menor tempo, recebe um diploma. E nem sempre esse diploma será uma garantia de vida próspera. Contudo, um diploma ou um grau dá a um estudante uma meta pela qual se esforçar. Tendo alcançado a primeira estação ele segue para a próxima. E sabe para onde está indo.

Quando não existem claras estações ao longo do caminho inevitavelmente também surgem as questões: “Qual o propósito disso tudo? O que irá acontecer no final?” Quando alguém conclui uma série de ações com algo tangível em suas mãos, ele tem o sentimento de ter realizado algo simplesmente real. Ao contrário, a falta de objetivos claramente definidos e de objetivos inerentes à natureza do estudo da Torah torna esse mundo muito mais violento onde prosperar, e coloca um problema real para quem quiser ter um intenso e longo estudo da Torah.

Caminhe diante de Mim

De fato, o ato de partir sem um objetivo claro ou de destino relembra o ditado da Torah: “Siga o SENHOR, vosso Deus” (Dt 13,5). Alguém pode saber o ponto de partida, mas não aonde ele vai chegar. Não existe segurança de que alguém se sente para estudar por um longo período de tempo, e que em seguida ele vai se tornar sábio, temente a Deus ou piedoso. A única instrução é “Siga o vosso Deus” ou, como está escrito na Parashat Lekh Lekha, “Caminhe diante de Mim” (Gn 17,1).

Outros discutiram como o mandamento “Caminhe diante de Mim” é um teste maior ainda que “Siga o vosso Deus”. A última instrução está relacionada a dizer a alguém, “Siga-me”; “Eu irei à frente e tornarei limpo o caminho diante de você”. Mas quando Deus diz para Abraão “Caminhe diante de Mim” de fato ele está dizendo: “Limpe seu próprio caminho; encontre você mesmo seu jeito. Você não tem garantias”.

“Caminhe diante de Mim” é um problema de vida. Existe um aspecto de Abraão em cada um de nós, e cada um de nós enfrenta a mesma situação que Abraão enfrentou. Algumas vezes temos de perder tudo pelo bem e por caminhar no caminho de Deus – uma terra, um local de nascimento, e uma casa paterna; mas existe sempre um aspecto de: “Eu irei e não receberei nada por isso”. Deus não promete coisa alguma, Ele quer simplesmente que comecemos a caminhar – seja seguindo a Ele ou caminhando diante Dele.

Aqui a excelência do povo de Israel se encontra precisamente nesta qualidade:

Israel demonstrou real grandeza... Pois eles não disseram a Moisés, “Como nós podemos ir ao deserto, sem ter alimentos para a jornada?” Antes, eles tiveram fé e seguiram a Moisés. Sobre eles está escrito: Vai bradar aos ouvidos de Jerusalém, dizendo, ‘Eu me lembro de teu devotamento, do tempo de tua juventude, o teu amor de recém-casada; tu me seguias no deserto por uma terra não cultivada” (Jr 2,2 - Mekhilta de Rabbi Yishmael, Beshallah).

Eles simplesmente foram. O povo Judeu viajou no deserto sem um destino conhecido, um fato que, no final, os deixou loucos. Depois de tudo, eles tinham comido maná, bebido água também e, fora as suas reclamações internas, eles não tiveram sérios problemas. O que estava afina incomodando a eles? O teste maior ao longo dos quarenta anos foi o sentimento de que eles estavam andando em círculos: “E nós contornamos o Monte Seir por muito tempo” (Dt 2,1). Eles estavam frustrados pela natureza aparentemente sem fim da jornada deles. Eles ficaram loucos pela falta de uma indicação, de um endereço, algum tipo de estrutura no seu caminho tortuoso.

A ordem de “seguir em frente” não é somente uma instrução, mas uma descrição de como uma pessoa deve seguir em frente na vida. Aprendemos de Abraão que este é o modo como alguém deve proceder, como Rabbi Judá HaLevi colocou nestes termos “Eu não perguntarei, Eu não vou testar” (Reshuyot 22). Isto é como alguém segue a Deus: sem um destino e sem um objetivo.

O grande chamado de Deus para o ser humano é esse, o primeiro e o último, é um chamado sem destino. Deus diz, “siga em frente”, e o outro se levanta e vai, sem conhecimento de onde irá chegar, sem saber o objetivo, e sem saber o alvo. Este caminho, com todas as suas dificuldades, é o próprio caminho para o início da vida de uma pessoa, pois esse é como a história de Abraão começa. Apesar de todas as bênçãos e promessas, esta é a primeira prova que Abraão enfrenta explicitamente na Torah: seguir a Deus e não questionar; partir, sem o conforto do espaço físico para chamar de seu lar.

Neste caminho, existe somente uma condição que Abraão faz através de todas as provações – e é uma condição eminentemente razoável: que ele saiba que é Deus quem está falando com ele, de que é Ele quem está instruindo a ele para seguir em frente. Abraão precisa somente a garantia de que Deus estará sempre com ele para justificar as ações dele. Seguir a Deus é o princípio; isso justifica por si mesmo.

A verdade é que, frequentemente, quando uma pessoa segue a Deus – seja por causa de um preceito, de uma oração, ou de um diligente estudo da Torah, algo muda dentro dele. A pedra amolece, o ferro racha, alguma coisa acontece. Contudo, não existe garantia de que uma particular série de ações boas levará a essas mudanças formativas. Sabemos que se alguém segue a Deus, isso naturalmente o levará a um desenvolvimento interior – numa autopurificação, refinamento, e conexão com Deus – mas não há garantia de que isso irá acontecer.

Se uma pessoa sente que não está pronta para esse chamado, então talvez ela não esteja pronta ainda para Parashat Lekh Lekha igualmente. Ela ainda está definhando na Parashat Noah, ainda está sentada com Noé e suas preocupações – beber ou não beber; fazer ou não fazer. A história de Noé é completamente diferente daquela de Abraão. Noé como seu nome implica, é o tipo de pessoa que descansa (Noah); tudo o que ele quer é ficar à vontade e descansar (lanoah).

De modo a ser como Abraão, alguém deve de boa vontade deixar “sua terra, seu local de nascimento e a casa paterna”, cada pessoa de acordo com sua capacidade. Cada um deve empreender esta partida, alguns num caminho muito concreto, outros somente num caminho de partida parcial, mas sempre de partida.

Quem segue a Deus, pela sua própria natureza, não pode ser encontrado nesta terra, em seu local de nascimento, nem em sua casa paterna. Salmo 135 afirma: “Ó casa de Israel, bendize o SENHOR! Ó casa de Aarão, bendize o SENHOR! Ó casa de Levi, bendize o SENHOR! Vós que temeis o SENHOR, bendizei o SENHOR! (Sl 135, 19-20). Existe uma “casa de Israel”. Uma “Casa de Aarão” e uma “Casa de Levi”, mas não existe uma “Casa daqueles que temem o SENHOR”. No final das contas, aqueles que temem o SENHOR não tem casa. Eles seguem a Deus.

Para avançar na reflexão:

  • O que as seguintes citações bíblicas falam sobre seguir a Deus: Sl 143,8; Is 48,17; Jr 42,3; Mt 8, 18-22; Mc 1,20?
  • “Porque aquilo que nos protege não são os muros, o que nos protege é o relento e o abandono, isso é a capacidade abraâmica de partir, a capacidade abraâmica de confiar, estamos sempre voltando naquilo que o primeiro crente foi chamado a fazer.” (Cardeal José Tolentino Mendonça)
  • Quais impressões e relações sobre a Parasha Lech Lecha, as citações bíblicas acima e a capacidade Abraâmica de partir você destacaria?