Parasha Emor


CENTRO CRISTÃO DE ESTUDOS JUDAICOS

Estudo Parasha da Semana - Emor – Lv 21,1 – 24,23

– Cristãos estudando as fontes judaicas –

WEINREB, Rabbi Tzvi Hersh. The Person in the Parasha. New York: OU Press, 2016, p. 350-353.


INTROVERTIDO E EXTROVERTIDO

Ainda que muitos dos seus adeptos o neguem, ele definitivamente tinha um lado anti-semita e foi no mínimo, por um tempo, simpatizando com a causa nazista. E ainda mais, ele foi o maior teórico psicólogo do século vinte e eu pessoalmente sempre considerei seus insights sobre a mente humana tanto fascinantes como práticos.

Seu nome era Carl Jung, e ele introduziu dois termos no campo da psicologia que eventualmente se tornaram tão bem conhecidos que fazem parte da nossa linguagem cotidiana. Ele fez a distinção entre “introvertido” e “extrovertido”.

Eu confesso que sempre tive problemas com o anti-semitismo de Jung e achava difícil para mim utilizar os conceitos de introversão e extroversão sem um sentimento de que estivesse de algum modo traindo meu povo. Mas suas ideias fazem sentido de um modo tão especial para mim que eu decididamente tive que utilizar e aplicar seus ensinamentos, deixando de lado seus sentimentos anti-Judaicos.

Com o passar dos anos, eu desenvolvi um hábito meio esquisito de “limpeza” da dicotomia de Jujng por aplicar suas teorias em textos, personagens, e instituições Judaicos. O que veremos é um exemplo desse hábito.

No pensamento popular os estereótipos referentes ao introvertido são o tímido, o retirado, e até mesmo o indivíduo anti-social cujas dificuldades com os outros faz com que seja duro para ele ajustar-se à sociedade. Por outro lado, o extrovertido é relacionado com os estereótipos de agregador, simpático, social e que se dá bem com todos os seus colegas.

Contudo, no entendimento de Jung esses dois termos tem muito mais nuances e complexidades do que aqueles estereótipos. Como Jung explica, existem duas fundamentais atitudes humanas. A primeira, introspecção, é caracterizada por uma natureza hesitante, reflexiva, retirada que se mantém, permanece de certo modo distante dos outros, e é autônomo num sentido muito verdadeiro do termo. A segunda atitude, extroversão, é caracterizada por uma natureza expansiva e aberta, que se adapta facilmente à determinada situação e que forma rapidamente conexões com os outros. Além disso, Jung insiste que não existe um introvertido em estado puro e nem um puro extrovertido. Antes, cada um deles contém uma combinação de introspecção e extroversão em variáveis proporções.

Na Parashat Emor (Lv 23), o Shabat (Sábado) e as maiores festividades Judaicas são descritas em ricos detalhes. De fato, esta Parasha contém as leituras da Torah para muitos dessas festas. O que é notável perceber é que o capítulo inicia com: “E estas são as Minhas festividades:”, mas então, a lista começa com o Shabat, como se o Shabat também fosse uma Festividade. Somente depois a parasha continua falando sobre a Páscoa e as outras festividades no calendário. Parece que o Shabat, também, embora ocorra a cada semana, é uma Festividade.

Contudo, sabemos que existem diferenças básicas importantes entre o Shabat e as outras Festividades. Para iniciantes, o Shabat foi ordenado como um dia especial no verdadeiro início da criação e foi ordenado pelo próprio Todo-Poderoso Deus. As festividades, por outro lado, não começaram até que a hisótria Judaica começasse, milênios após a criação; e a sua santificação, no mínimo em tempos remotos, dependia da declaração de uma reunião humana.

Existem outras diferenças entre o Shabat e as Festividades, entre Shabbat e um feriado (Yom Tov – Dia festivo). No Shabat objetos não devem ser transportados do domínio privado para o espaço público. Nas festividades, exceto em Yom Kippur, não existem restrições em transportar objetos de um espaço para outro. No Shabat, todo tipo de trabalho criativo é proibido, mesmo cozinhar e assar comida de Shabat. Durante as Festividades, exceto Yom Kippur, cozinhar e assar carne fresca para o dia festivo não somente é permitido, mas é incentivado.

O sábio rabbi do século vinte da cidade de Dvinski, em Latvia, Rabbi Meir Simcha, ficava intrigaodo por este e outros contrastes entre o Shabat e as Festividades. Ele via o Shabat como sendo primariamente um tempo privado, um tempo para o indivíduo estar sozinhon e comprometido numa introspecção espiritual. Afinal, o Shabat não dependia das outras pessoas, mas foi inicialmente proclamado pelo próprio Deus, por Ele mesmo. No Shabat não era permitido comércio algum do domínio privado para os espaços públicos e não se recomendava cozinhar refeições para hóspedes.

Na linguagem psicológica, o Shabat serve para o introvertido dentro de nós. Ele é consistente com a atitude de introspecção, que prefere o silêncio e a solidão ao invés da socialização e a interção entre as pessoas.

As festividades, por outro lado, depende dos outros. Se não houvesse a proclamação de uma corte Judaica, não haveria a Festividade. As fronteiras entre os espaços públicos e privados, que é tão característico do dia de Shabat, desaparece durante uma Festividade. Entreter convidados durante as Festividades é tão importante que é uma condição que permite cozinhar e assar mesmo tarde no dia da Festividade. Em linguagem psicológica. Yom Tov (Dia Festivo) é oferecido para o extrovertido dentro de nós. Festividades são um tempo quando nossas atitudes de extroversão tem a sua oportunidade para serem plenamente manifestadas.

Dada a origem do conceito de introspecção e extroversão na mente de um pessoa que faltou em honrar a tradição Judaica, dá-me um prazer especial utilizá-lo como forma de elaborar os insights profundos de um notável e piedoso Judeu, Rabbi Meir Simcha.

Eu concluiria ainda com outro exemplo de introspecção do Shabat e de extroversão nas Festividades. As principais emoções do Shabat são dignidade (kavod) e deleite pessoal (oneg). Ambas emoções caracterizam a experiência da introversão. Yom Tov (Dia Festivo) é caracterizado por uma emoção inteiramente diferente, a emoção da alegria, uma emoção melhor experimentada, e de forma indiscutível e somente possível, na companhia das outras pessoas.

E é por que o ser humano é um complexo de combinações de atitudes de introspecção e extroversão que nós podemos entender o porque de existir um Shabat semanal e uma série anual de Festividades. Nós precisamos de momentos para cultivar eus autônomos, precisamos de oportunidades para contemplação e reflexão que o Shabat oferece, mas igualmente nós precisamos também de momentos para nos conectar com os outros no contexto da alegria e da celebração, oportunidades que as Festividades amplamente oferecem.

Não é de admirar então que nossa Parasha insiste em incluir o Shabat, o introvertido, entre as Festividades extrovertidas. É a complexa combinação das duas atitudes que traz uma harmonia espiritual, na qual nossa Torah defende e que é a essência da pessoa completa.

Para avançar na reflexão e na teologia da continuidade das Sagradas Escrituras

  1. Ex 18,9-12; Is 55,1; Mt 9,10; Mc 3,2.4; Mc 6,31 – Confira as citações bíblicas propostas e procure relacionar com a experiência humana da introspecção e da extroversão nesta parasha. Que outras perguntas o texto lhe faz?
  2. As festas do Calendário Litúrgico Cristão, memórias de santos, solenidades do SENHOR, e dias de Festa lhe ajudam mais a viver a introspecção ou extroversão? Existe no Ano Litúrgico algum espaço ou tempo para a introspecção? Explique a sua opinião.