Parasha Nitzvaim - Dt 29,9 - 30-20


CENTRO CRISTÃO DE ESTUDOS JUDAICOS

Estudo da Parasha da Semana - Cristãos estudando as fontes judaicas - PARASHAT NITZVAIM – Dt 29,9 – 30,20
Uma atitude de gratidão 
Rabbi Dr. Tzvi Hersh Weinreb –
Discovering the Human Element in the Weekly Torah Portion.
New York: OUPRESS – Maggid, 2016,p. 591 - 593

Muito obrigado!

Penso que essas são as duas mais importantes palavras em nossa língua. Eu constantemente recomendo para pais novos que essas duas palavras se tornem uma das primeiras coisas que eles devem ensinar o bebê a falar.

A ideia por detrás dessa aparente simples frase é o conceito de gratidão. Cada um de nós, não importa qual seja o grau de dificuldade nossa na vida, tem muitíssimo para agradecer. E ainda mais, alguns de nós se sentem gratos, e menos ainda expressamos nossa gratidão para com os outros. O mundo seria um lugar bem melhor se cada um de nós cultivasse uma “atitude de gratidão”.

Existem dois fatores que tornam mais difícil para muitos de nós ter esta atitude e articulá-la em nossa vida. O primeiro fator é o sentido de direito que tantos de nós têm, e isso está bem presente em nossa sociedade. Sentimos como se todas as coisas que temos foram dadas a nós por direito. Tinham de “vir até nós”.
Criamos nossos filhos para que acreditem que todas as suas necessidades vão ser providenciadas e que eles não precisam fazer muito esforço por si mesmos para alcançar as necessidades e mesmos luxos na vida. Não é de se espantar que nossos filhos não manifestem sinal algum de gratidão para conosco. Ninguém pode apreciar de verdade os benefícios da vida se achar que tem direito a eles.

Existe outro fato que está no caminho da “atitude de gratidão”. E é uma consequência sobre o estresse que a nossa sociedade coloca sobre o valor da autonomia. A pessoa totalmente autônoma está convencida que ela é a fonte de todas as suas conquistas e, portanto, não é devido a mais ninguém. A ilusão de extrema autonomia se traduz na poderosa bíblica frase: “foi pela minha mão e pelo meu poder que me foram trazidos o meu sucesso”
Na Parashat Nitzvaim, lá se repete uma impressionante litania de frases. “O SENHOR não irá perdoá-los. A ira do SENHOR vai descer contra vocês em grande ira e em grande fúria”.

Essas frases todas nada mais são do que a reação de Deus frente a ingratidão. “Eu tirei vocês do Egito... Eu incluí todos vocês em minha Aliança... Eu trouxe a vocês vida e prosperidade... para que vocês possam aumentar e progredir”. E ainda assim, vocês não me agradecem. Vocês não são agradecidos. Vocês não sabem apreciar e reconhecer as bênçãos que eu entreguei a todos vocês.

Nas palavras finais de Sua Torah, Deus reserva seu desprezo mais severo por causa de nossa incapacidade de “contar as nossas bênçãos!” Como essa lição ainda se torna importante e necessária para nós hoje! Quantos de nós sentem, realmente sentem, gratidão por aquilo que vivemos e respiramos, por termos saúde, por podermos viver numa sociedade livre, por termos amigos, por termos família? Pelo contrário. Nós não estamos, contudo, sentados por cima de nossas reclamações e mesquinhas decepções?

A gratidão é o verdadeiro material do qual as saudáveis relações humanas são feitas. Crianças agradecidas são crianças felizes e é uma delícia cria-las. Um marido e uma esposa agradecidos um ao outro e que expressam esses sentimentos de gratidão são uma alegre dupla de pessoas casadas. Nosso sentimento de admiração é importantíssimo para uma melhor expressão de nossa humanidade, e está baseado em nossa gratidão pela natureza e por sua beleza.

O fato de que acharmos que temos a natureza como algo garantido para sempre é o principal motivo de o quanto nós abusamos dela para o nosso próprio prejuízo. A grande bênção de termos bons amigos já é algo muito grande para ser agradecidos. E, ironicamente, alguém ganha mais amigos através das mútuas expressões de gratidão que oferece.

Partindo da perspectiva religiosa, a gratidão para com Deus é uma declaração de fé. Expressando gratidão, nos reconhecemos e entendemos que somos criaturas limitadas, dependentes de Deus, de seu suporte e sustento, sem os quais nós não poderíamos sobreviver. 

Nós reconhecemos que ninguém pode realmente nada alcançar “por seus próprios poderes e pelo poder de suas próprias mãos”. Agradecer a Deus em oração ou meditação é uma expressão de humildade e uma aceitação dos limites humanos.

Não é de se admirar, portanto, que em Hebraico a palavra para confissão (hodaa) é a mesma palavra para gratidão. E nenhum espanto também diante do nome Judeu ter vindo também da palavra Judah, que deriva do nome dada pela matriarca Lea pelo seu filho nascido, que ela assim o chamou porque Judah significa ação de graças. O povo judeu, portanto, na Bíblia é um povo que sabe dar graças, sabe agradecer.

Lembro-me bem de consentir com a cabeça quando eu ouvi a Isaac Bashevis Singer dando sua palestra do prêmio Nobel em Estocolmo em 1978. Ele falou sobre “a gratidão por cada dia da sua vida, por cada migalha de sucesso, por cada encontro de amor”.

Bem dito. Mas talvez o poeta britânico Thomas Gray tenha dito ainda melhor:

Doce é a respiração de um chuveiro no inverno
As abelhas coletaram tesouros doces
Aa música está derretendo,
mas ainda mais doce
é a voz mansa e tranquila da gratidão

Cf. Lc 17, 11-19

Sobre a gratidão, algumas experiências marcantes a partilhar, ou sobre a ingratidão? O que o texto evangélico nos mostra sobre isso?
Que outras questões surgiram a partir da leitura desses textos? Lembre-se, às vezes as perguntas que fazemos são mais importantes que as respostas que encontramos.